BOM JESUS DA LAPA-BA

Não contarei aqui sobre a viagem de turistas, mas, a viagem de mãe e filho que juntos precisam ir ao trabalho pelas necessidades da vida.

E se “para viajar basta existir”, como disse Fernando Pessoa, então estamos a todo o momento em profundas viagens. Elas revelam alegrias, tristezas, dissabores, fantasias e a realidade dura e crua do mundo em que vivemos.

Foi com o espírito da necessidade do trabalho, da paixão pelo que se faz e da curiosidade de turista que Davi e eu partimos para Bom Jesus da Lapa – BA.

Saímos da rodoviária de Salvador às 19h e chegamos a Bom Jesus da Lapa por volta das 07h, num percurso que a criança de três aninhos dormiu tranquilamente a noite toda. Já não dá para falar o mesmo de mim.

A 796 km de Salvador-BA, aí está Bom Jesus da Lapa, pelo olhar de quem estava num barco de pescadores no rio São Francisco (região do médio São Francisco) rumo às comunidades ribeirinhas do município.

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Bom Jesus da Lapa que é quase toda plana, destaca-se na região pelo conhecido morro da Lapa, que é um exuberante bloco de granito e calcário – de 93 metros de altura, 400 metros de largura e aproximadamente 1.000 metros de extensão – com muitas grutas e fendas estreitas (Prefeitura de Bom Jesus da Lapa).

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Por volta do ano de 1690, um monge descobriu o morro da Lapa e ali construiu o Santuário de Bom Jesus, quando tudo era apenas o rio, o morro e os índios Tapuias.

Assim formou-se a cidade com os devotos que fizeram suas moradias perto do lugar.

Hoje a cidade recebe um elevado número de turistas religiosos a procura do Santuário de Bom Jesus, com grandes romarias de vários lugares do país, tornando-se históricas e tradicionais.

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Embora eu tivesse considerado o morro da Lapa e a história do lugar interessantes, meu olhar nessa viagem dirigia-se para o rio e para o povo ribeirinho de Bom Jesus.

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Eu queria apresentar ao meu filho Davi, nesta viagem de 6 dias de trabalho intenso e 2 de descanso, um pouquinho das comunidades quilombolas e ribeirinhas com quem eu estava trabalhando.

Trago aqui um pouco do conceito de comunidades quilombolas, apenas para dar mais sentido aos meus sentidos registrados neste post.

As comunidades quilombolas são grupos étnico-raciais, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas e com ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida, conforme Decreto nº 4887/03. Essas comunidades possuem direito de propriedade de suas terras consagrado desde a Constituição Federal de 1988. (MDS – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome).

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Saímos os dois num barco a percorrer as comunidades, acompanhadxs (guiadxs) por alfabetizadoras e também, moradoras das ilhas do São Francisco.

Em Bom Jesus da Lapa existem muitas ilhas, entre outras, a da Cana Brava, do Medo, da Mariquinha, sendo essas as quais visitamos.

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Realmente, escrever o que vivemos é viver duas vezes e é sentir duas, três, dezenas de vezes aquilo que nos tocou. É internalizar aquilo que fez nossos olhos brilharem de emoção, de alegria ou tristeza.

Nas idas as essas comunidades ribeirinhas eu estava em busca de compreender melhor o que eu havia vivenciado como formadora no processo de formação junto às alfabetizadoras de jovens e adultos em Bom Jesus da Lapa e região.

Ainda padecemos com milhões de jovens e adultos que não são alfabetizados. A grande maioria não teve a oportunidade de ir à escola, justamente, por estar isolada no tempo, espaço e política.

Refiro-me a política que isolou milhões de pessoas em preconceitos, discriminação, injustiças e miséria, acarretando em inúmeras consequências, entre elas a não alfabetização.

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Caminhar junto do meu filho Davi pelas ilhas do rio São Francisco em Bom Jesus da Lapa, trouxe a experiência de uma viagem não turística, que me encantou e inquietou com a beleza da paisagem, com a história de luta e resistência de um povo.

Aprendizados inesquecíveis não apenas para a minha profissão, mas, para a vida é o que carrego dessa viagem. Ao Davi, provavelmente, trouxe a diversão e alegria de uma criança ao lado da mãe, seja onde for.

 “… A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativas. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”

(José Saramago)